Quando ele nasceu
Foi algo ardente, aquela sensação
que vinha de dentro e serpenteava na superfície da pele.
Inominada para mim, mas foi
datada.
Uma data, semelhante à minha. Era
o destino - eu romanticamente deduzi.
Estávamos destinados àquele
momento, era para ser assim. Que bom que eu lhe encontrei -pensei sem dúvidas.
Eu deixei que os dias passassem
suavemente e me coloquei a pensar. A pensar e a cada momento mais a me
apaixonar.
Como poderia ser outra coisa senão
o encontro de almas?
Enfim, eu deveras havia
encontrado o amor fora de mim. Mesmas ideias, mesmos gostos, mesmas vivências.
Nascidos no mesmo dia. Separados por 8 anos e alguns poucos quilômetros. O que
é essa tal distância diante de tudo que poderíamos viver agora?
Mas, o agora com que eu imaginei
e desejei foi vivido em outros braços, outros lábios, outras festas, outras
bebidas e diversas esquinas.
Eu aceitei meu destino, assim
como o aceitei naquele momento nos braços do prazer e toque de peles suadas,
caricias de quem teatraliza o fazer amor e palavras de que bem decora textos. Ambos
fomos personagens, mas eu acreditei e me entreguei mais a essa encenação.
Eu sorria dias, cantava horas e
me dissolvia em expectativas.
Nascemos no mesmo dia, as horas e
anos que nos separavam não importavam, eram mesmas histórias, a gente se
sentia, eu tinha certeza. Era coisa do destino – eu já disse isso antes?
E nas ruas e lugares a vida
parecia nos fazer reencontrar. Era coisa do destino – era fácil afirmar.
Porém, no vai e vem de mensagens,
nas subidas e descidas de intensos desejos, no cruzar em ruas e esquinas sem se
cruzar os olhares, nas mãos que não seguravam as minhas, eram outras, os beijos
e declarações que não continham minha pele nem meu nome. Seria coisa do
destino? – Eu questionei.
Procurei justificativas. Submeti
as emoções ao silêncio, comprimi a razão. Quase me esqueci de mim. Estava tudo
bem - eu dizia sempre, é assim mesmo. Tirei o melhor proveito que pude. Mas e
agora?
Eu queria a presença, reviver o
prazer e sentir o toque, ouvir a voz e mais uma vez sentir serpentear na pele o
calor que vinha de dentro, tudo que eu tomava dentro de mim e colocava
dentro... Eu parei.
Era coisa do destino, talvez? Eu
já não tinha tanta certeza. Mas, os sonhos, aparições, mensagens que vinham
pelas metades e demoravam meses para continuar, faziam eu sentir algo. Que
algo? De onde vinha essa sensação que me alegrava e ao mesmo tempo irritava,
que transcendia meu corpo e sentidos e me fazia sentir tão pequeno e
indesejado?
Peguei essa força, a força da
raiva que comecei a sentir por ter mais uma vez, por mais sensato que consegui
ser, entregue-me mais uma vez a uma paixão tão passageira. Com tudo isso, eu
sentei, fechei os olhos, levei para dentro todo incentivo possível de um torpor
que me fizera refletir. Como posso com isso tudo lidar e voltar a sanidade?
Então, eu vi, era mesmo coisa do
destino.
Eu vi o dia em que nasceu. Eu
estava lá, quilômetros de distância, mas eu vi a exata hora em que veio ao
mundo de minhas emoções. Eu sorria, era meu dia, e preparando estava a ser o
bolo. Questionados fomos sobre o porquê de tanta algazarra na cozinha, e eu
feliz, levado pelo impulso daquele possível dialogo que poderia conectar-me,
respondi que era meu aniversário. Estava ali, sendo gestado, estava uma parte
ali em mim e outra em meu interlocutor, e ao que disse “que bobagem”, ainda não
tinha nascido, estava sendo rapidamente gerido, e eu poderia interromper e
optar por um aborto ou dar à luz diversos outros personagens, mas só pude
conceber você, o desprezo, a rejeição e a indiferença.
A infante euforia trazia a
certeza de desfrutar de uma alegria certeira. Mas, ao som daquela expressão “que
bobagem”, o inocente brilho se apagou.
Só essa memória eu guardei do dia
em que nasceu. Nem mesmo do bolo e de como foi comemorado o meu dia eu me
recordo. Recordo somente de como nasceu. E eu, mais uma vez pensei ser destino,
só de lembrar o que se passou comigo no dia do seu nascimento. E era, mas não
era sobre uma pessoa e sim sobre um trauma.
Durante anos criei, alimentei e
deixei crescer o fruto daquilo que eu deixei brotar em mim naquele dia, e por
anos atrai pessoas e situações que me faziam reagir da mesma maneira e a me
sentir indesejado, desprezado, mais um na multidão ou simplesmente uma bobagem.
Encontrar seu belo corpo naquele
quarto, os seus lábios no corredor e beber do vinho de sua pele, o destino
estava apenas personificando aquele que nasceu da minha mente e viveu em minhas
emoções e o colocou no mesmo dia e hora para deixar claro com o que eu
precisava lidar.
Naquele dia, não foi um homem que
nasceu, mas sim um sentimento fixo de pequenez, que agora, acolhido,
compreendido, perdoado, eu vejo se deitar no solo de minha mente e descansar. Pois
agora, a criança que antes ferida estava, percebeu que o seu dia vale a pena
sim ser comemorado, que ela importa, que seus sentimentos têm valor e que sua
presença é imensa e grandiosa.
Essa criança hoje canta, dança e
se alegra.
É ardente essa sensação que vem
de dentro e serpenteia na superfície da pele.
Ela tem um nome para mim, ela
também tem data.
Uma data, semelhante à minha. Era
de fato o destino - eu sou romântico.
Estávamos destinados a nos
reencontrar, e foi assim. Que bom que eu lhe encontrei – sorri ao dizer.
Nos abraçamos, nos reconhecemos, resinificamos
e vencemos mais uma vez.

Você realmente é incrível ❤️🙏👏👏👏😍
ResponderExcluirObrigado. Seja sempre bem vindo(a)!
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