Humanidade corrompida





_ Eu lhe dou a minha palavra.

_ Sendo assim, tudo bem.

_ Eu te amo.

_ Eu também.

Diálogos simples como esses talvez sejam hoje inexistentes. Palavras que antes eram sólidas como rochas, hoje perderam o sentido, não possuem mais a veracidade e a importância que um dia tiveram. A palavra de uma pessoa não tem mais o valor de um papel assinado. Amar alguém se tornou algo banal, e acreditar em alguém virou um verdadeiro jogo de sobrevivência.

Não posso acreditar se não me entrego, e se me entrego me torno posse. Se sou posse, já não mais me pertenço, e se não me pertenço, outro faz de mim o que quiser. Sinceridade? As pessoas aprenderam a interpretá-la para benefício próprio. Admirar alguém se tornou uma habilidade adquirida por meio de livros de autoajuda sobre como conquistar as pessoas. Estamos cada vez mais abstratos, e o real se torna um conceito distante, quase inalcançável.

Vivemos em um mundo que se parece mais com um presídio, cheio de diversas celas de prisões. Prisão de quem vive para o trabalho, prisão de quem vive para o marido, prisão de quem vive para os filhos, prisão de quem vive para os estudos. São prisões e mais prisões. Todos nós estamos presos, corrompidos por nossos próprios desejos, escravos dos nossos sonhos. E quando finalmente conquistamos algo, já estamos velhos demais e sem ânimo. Deixamos para um herdeiro ou para o governo tudo o que conquistamos, enquanto o que realmente importa, o viver sincero e dedicado, muitas vezes nos escapa.

A única coisa que realmente temos e que ninguém pode nos roubar é o viver autêntico, seja por nós mesmos ou por quem amamos. Porque, quando se ama de verdade, entrega-se sem se perder, doa-se e sempre se reencontra no outro. Não é sobre ser posse, mas sobre ser presença, ser parte.

Os bons costumes se corromperam. Estamos mesquinhos, egoístas. Se não for como queremos, então não serve. Mas até quando? Nunca alcançaremos um bom fim se continuarmos nesse caminho. Que futuro nos resta se não cuidarmos uns dos outros? A humanidade parece estar se comportando como vermes, destruindo tudo e todos, corrompendo e sendo corrompidos, dia após dia.

Porém, há esperança. Retomar a conexão genuína exige esforço, requer coragem para ser vulnerável, para dar valor ao que realmente importa. É sobre reconquistar a autenticidade nas nossas relações. Podemos começar aos poucos: um olhar sincero, uma escuta atenta, uma palavra que não precise ser medida em papéis assinados, mas que ressoe na alma de quem a recebe. Precisamos aprender a doar sem esperar algo em troca, a confiar mesmo com o risco, e a ser presença na vida do outro sem o desejo de controlar.

Talvez, assim, possamos resgatar a humanidade que, por tantas vezes, deixamos de lado. Porque amar, no fim das contas, não é uma promessa; é uma prática diária de entrega, de cuidado e de verdade.

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