O Os Encerramentos Sem Finais

 



Todos os dias quando acordo e vou à cozinha, você, Os Encerramentos Sem Finais, está sentado na mesa do café, sem dizer uma palavra, apenas me acompanhando com o olhar.

Esse semblante sem sinais claros. Os olhos sem brilho e os lábios frouxos dependurados na face. Nenhum movimento ocorre além do giro de sua cabeça na direção de onde vou.

Eu passo meu café, sento à mesa, tento ignorar sua presença até que ouço um profundo suspiro. Eu tenho certeza que esse movimento veio de você, mas quando o olho não há sinal de movimento da respiração, nada em seu semblante mudou, continuam lá, os olhos frios e agora já secos, os lábios frouxos como que obrigados a estarem ali abaixo do nariz que nem parece respirar. Nenhum musculo facial se mexe. Como você soltou este suspiro?

Eu já perdi a noção do tempo em que lhe encontro aqui todas as manhãs. Já faz dias que sua presença é totalmente ignorada por mim, haja vista a quantidade de coisas em que me ocupo e os dias, que são muitos, em que você nem se move. Mas, hoje, esse suspiro...

Esse suspiro me permitiu olhar pra você de novo. Senti um transbordo de expectativa de resposta com uma breve sensação de que “agora ele vai falar”. Ledo engano. Você só pareceu estar incomodado com minha indiferença em todos estes dias e queria meu olhar buscando o seu novamente. E conseguiu. Eu me iludi com migalhas de um suspiro fingindo ser palavras ou mesmo um gesto.

Depois de lhe fitar o olhar por algum tempo, que não contei, mas creio ter sido por alguns bons minutos, senti a xicara quente na ponta dos dedos e resolvi solver meu café. O sabor do amargo e quente líquido descendo pelo paladar, a resistência do que chegava ao estomago despertou meu corpo em um arrepio de sensações, foi um gole, ainda que incômodo, de presença viva e real.

Eu busquei a luz do sol que entrava pela janela entre os bordados da cortina da cozinha, senti todo meu corpo presente e por um instante eu entendia que ainda, você, Os Encerramentos Sem Finais, estava ali. Não porque você precisasse dizer ou fazer algo, mas porque eu estava deixando minha cadeira ser ocupada por alguém que claramente não se importava.

Eu deixei você entrar, acredito até que lhe fiz o convite. Não me recordo bem. Mas, lembro agora que puxei a cadeira em um momento em que seus gestos eram mais amigáveis. Mas, na manhã seguinte você já estava frio. Acho que ficou sentado demais. Com fome, talvez? Sentiu frio ou o seu corpo doía? Não sei. Só sei que o deixei ali tempo suficiente para perder a noção do que eu estava suportando todos esses dias, meses ou até anos, pois não sei ao certo a data em que chegou.

Ao me virar em direção à mesa da entrada, eu encontrei as chaves com o olhar. Percebi que ela reluzia. Talvez há muito tempo estava ali tentando ser vista.

Voltei meu olhar a você e lhe fiz um sinal para que se levantasse. Você se moveu como se fosse um conjunto de peças de madeira encaixadas formando seu corpo. Nada mudou em seu olhar que continuava a me encarar, sem profundidade, sem brilho, sem nenhuma informação, só na direção dos meus olhos.

Levemente lhe segurei no braço esquerdo, guiando-o em direção à porta. A abri. Apontei o caminho que se estendia ao final do horizonte e sumia. Eu lhe mostrei com um único gesto por onde ir. Você deu os passos até após o batente da porta, andando ainda de forma que conseguia me ver. Mas, ali, do lado de fora, eu consegui fechar a porta às suas costas e à minha frente. Ouvi seus passos iniciarem ainda nos ladrilhos do passeio que se estendia da minha porta até o início da estrada e então, silêncio!

Eu ainda estava segurando a maçaneta fria que se aquecia com meu toque quando deixei de ouvir qualquer som externo. Mas estranhamente, ouvi uma das cadeiras se movendo. Eu me arrepiei dos pés à cabeça. Mas sentia uma sensação leve e aconchegante.

Quando me virei, vi a mim mesmo. Sentado, sorrindo e tomando meu café. Estava desfrutando a página de um livro e a felicidade era nítida. Alguém que encontra a verdade em cada linha e o sabor suave de um café passado pela manhã em um dia de sol fresco e radiante.

Eu sentei-me de frente à minha companhia, nos olhamos nos olhos, que agora brilhavam e estavam naturalmente úmidos. Um sorriso leve nos lábios que agora eram como ornamentos na face. Levantamos nossas xicaras de café e nos dedicamos à leitura de mais algumas páginas dos livros em nossas mãos. Encontramos enfim, Os Finais Que Se Encerram.

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