A Vida Que Eu Não Vivi

 


Hoje, enquanto o sol se despedia no horizonte, eu percebi algo profundo. Tão profundo que talvez eu ainda não compreenda completamente. Talvez leve uma vida inteira para assimilar. Mas foi ali, naquele instante dourado do fim de tarde, que vi com clareza: eu passei boa parte da minha vida tentando viver a vida dos outros.

Não era por mal. Era por tentativa. Por desespero. Por amor, talvez — ou o que achei que fosse amor. Eu tentei ser meu pai, para compensar a paternidade que ele não soube me dar. Tentei ser minha mãe, para ajustar o relacionamento dela com ele. Tentei ser minha irmã, para curá-la como filha, como irmã, como mulher. Tentei ser amigos, líderes, empresários. Tentei ser vidas. Mas nenhuma delas era a minha.

E o mais duro: eu não fiz isso por eles. Fiz por mim. Para que fossem diferentes comigo. Para que me tratassem como eu gostaria. Para que o mundo ao redor me desse aquilo que eu achava merecer. Era uma encenação do que eu julgava bom, justo, aceitável. E ao mesmo tempo, um abandono completo de quem eu era.

Com isso, me perdi. Não vivi a minha vida. Não olhei o mundo com meus próprios olhos. Passei a existir numa realidade sem cor, sem graça, onde tudo parecia sombrio. Porque minha mente estava sempre fora de mim. Meu desejo estava lá, na reação que eu queria do outro. Minha energia, meu amor, minha luz — tudo estava fora.

Como eu queria que tivessem dito isso. Como eu queria que me tivessem visto de outro jeito. Como eu queria que aquela mensagem chegasse antes. Como eu queria reconhecimento, afeto, validação. Tudo do lado de fora.

Mas, e o lado de dentro? Eu mesmo não fazia isso por mim.

E percebi: minhas retinas estavam viciadas. A dor de voltar o olhar para dentro arde, porque o costume era olhar sempre o outro. Mas agora, tento. Tento todos os dias. Quando embaça, quando escurece, me pergunto: pra onde estou olhando? E se não for pra mim, eu paro. Respiro. Recalibro.

E se funcionou? Não sei. Mas sei que prefiro meu escuro verdadeiro ao brilho falso que tentei tomar emprestado dos outros.

Porque no fundo, a felicidade... ela já está aqui. Não falta nada. Só preciso tirar o que a impede de entrar. É como estar submerso no oceano, coberto por roupas impermeáveis. A água está em volta, abundante, mas não me toca. Só toca as camadas que vesti. Preciso me despir de mim. Do ego, do controle, da ilusão.

Só assim, nu de tudo o que me pesa, poderei sentir a leveza de existir. E então, o que sempre esteve aqui — a alegria, a beleza, o amor — vai finalmente me alcançar.

Ainda, continuando a olhar o pôr do sol, foi quando notei com mais clareza a paisagem e pensei: “é tão bonito que nem parece Brasil”, e eu percebi outra prisão. A de acreditar que o belo está sempre em outro lugar. Como se a minha cidade, o meu chão, o meu corpo, o meu agora não fossem belos. Como se tudo que é digno estivesse lá fora.

Mas não. Eu sou lindo onde estou. Sou belo no corpo que habito. E o pôr do sol que vi hoje não precisava ser de outro país. Ele foi meu. Aqui. Agora. Isso basta.

Mudou tudo? Não. Mas algo em mim encontrou o passo certo. E como ouvi esses dias: a pedra do caminho não derruba quem caminha atento. Quem tropeça já traz o desequilíbrio. Quem se ira já carrega a raiva. Quem chora já tem o pranto entalado. A pedra só revela o que já está dentro.

E eu decidi olhar pra dentro. Porque enfim, é a minha vida que quero viver.

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